O monitoramento de longo prazo mostra que as florestas alagáveis amazônicas (várzea) podem sustentar altas densidades de onças-pintadas, mas a aparente estabilidade pode mascarar um declínio populacional subjacente, destacando a necessidade de esforços contínuos de conservação diante do aumento de eventos climáticos extremos.
As onças-pintadas são o maior felino das Américas e desempenham um papel fundamental na manutenção do funcionamento dos ecossistemas. Em grande parte da sua distribuição, as populações estão em declínio devido à perda de habitat, caça e conflitos com humanos. Na Amazônia, apesar da grande extensão de habitat ainda existente, dados demográficos de longo prazo permanecem escassos. Essa lacuna é particularmente preocupante, pois as mudanças climáticas estão aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos, como cheias e secas, que influenciam fortemente os ecossistemas de várzea. Esses sistemas alagáveis dependem da inundação sazonal para sustentar sua produtividade, mas são sensíveis a alterações na hidrologia e no acesso humano.
Neste estudo, apresentamos um monitoramento ao longo de 17 anos com armadilhas fotográficas de onças-pintadas, composto por 14 sessões amostrais na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia Central — um dos mais longos estudos já realizados com a espécie — para avaliar a dinâmica populacional em um ecossistema de pulso de inundação. Estimamos parâmetros demográficos-chave, incluindo sobrevivência, recrutamento — as primeiras estimativas desse tipo para a Amazônia — e variações na densidade ao longo do tempo. Mamirauá é uma reserva de uso sustentável onde comunidades locais participam ativamente do uso dos recursos e da conservação, oferecendo uma oportunidade única para avaliar a persistência das onças em uma paisagem moldada tanto pelas cheias sazonais quanto pelas atividades humanas.
Observamos que Mamirauá sustenta algumas das maiores densidades de onças já registradas, comparáveis a outros sistemas alagáveis produtivos, como o Pantanal e os Llanos. No entanto, apesar dessas altas densidades, múltiplas evidências indicam um padrão demográfico mais complexo. O recrutamento da população varia com o sexo; a densidade de machos aumentou ao longo do tempo, provavelmente refletindo imigração de áreas vizinhas, enquanto a densidade de fêmeas diminuiu. De forma consistente, as taxas observadas de crescimento populacional foram inferiores a 1 (média = 0,97), indicando um declínio gradual e baixa renovação populacional. Esses resultados sugerem que a imigração de machos pode estar compensando a remoção local de machos, provavelmente devido à caça, e assim, mascarando um declínio subjacente no segmento reprodutivo da população, possivelmente impulsionado pelo aumento do infanticídio (por machos imigrantes) e pela redução do sucesso reprodutivo.
Embora não tenhamos detectado efeitos diretos do pulso de inundação sobre as taxas demográficas, os níveis sazonais da água provavelmente influenciam o acesso de caçadores e a conectividade entre habitats, moldando assim a dinâmica de movimento e imigração. Em conjunto, nossos resultados indicam que altas densidades, por si só, podem não refletir a saúde populacional, e que a estrutura demográfica — especialmente a sobrevivência e o recrutamento de fêmeas — é fundamental para a persistência a longo prazo.
Nossos resultados destacam que a conservação eficaz da onça em sistemas de várzea requer não apenas a continuidade de estratégias de manejo comunitário, mas também ações direcionadas para promover a persistência de machos locais, bem como a sobrevivência e o recrutamento de fêmeas. Eles também enfatizam a importância de monitoramentos de longo prazo com intervalos amostrais consistentes para detectar mudanças demográficas sutis. À medida que os eventos climáticos extremos se intensificam, será essencial integrar o manejo local com estratégias que considerem as mudanças nos regimes hidrológicos. As florestas alagáveis amazônicas ainda são sub-representadas no planejamento da conservação, mas são fundamentais para a biodiversidade, os meios de vida das populações locais e a viabilidade de longo prazo das populações de onças-pintadas.
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